De algum tempo atrás

E um dia começou. Parecia passageiro, rápido. Necessário. Algumas pessoas agradeciam, outras maldiziam. Para que? Havia sua necessidade e precisão. Eu me tornava doente, algo me incomodava com a sua ausência. O céu estava escuro, cinza. Pesado. E não mudava. O humor das pessoas tornou-se escuro, cinza. Pesado.

Enfim, se acostumaram.

Acidentes ocorreram. Pessoas perdiam o controle em sua presença. Outras corriam, não se sabe se por medo ou para admira-la. Mas todos a notavam. Parecia uma daquelas grandes mulheres de alguma importância que aparecem para dar um brilho especial na festa. Mas sua presença longa fez o brilho sumir.

Apagou-se.

Tudo ficou baço, úmido, gelado. Inclusive eu. Algo me corroia, corroia o mundo, corria pela janela. Eu acompanhava seus traços, seus desenhos. Ouvia seus sons. Percebia sua presença. E não podia afastá-la. Não conseguia. Nem ninguém. E havia um medo. Tal qual a morte. Mas a morte é diferente. Ela vem ou aos poucos, ou de repente, e é irrevogável. Eu te vi, chegando ao longe. Achei que era por pouco. Tamborilei os dedos olhando lá fora.

A chuva durou muito tempo.


 

A crônica do fim

Os últimos dias de férias são como aqueles primeiros da grande viagem que você faz, pela primeira vez na vida. Tudo parece estranho, mas existe uma sensação indecifrável no ar. Hoje, o dia amanheceu cinzento, morno, macilento. Uma triste nostalgia percorre tudo. Penso em tudo o que aconteceu há alguns dias, e me parece um passado longínquo, o qual me dá saudades.

De repente, penso no trabalho, e algo me parece irreal em tudo aquilo. Como se tudo já houvesse passado, como se nada mais fosse tangível. Como se em algum lugar tudo se perdera, e eu apenas pudesse achá-lo nos recantos das minhas memórias. Mas é nesse momento que tudo volta. A tensão do trabalho, as atividades por preparar, aquelas para serem concluídas, as cobranças, os prazeres e as dores.

Tudo isso me atormenta nesse dia cinzento, morno e macilento. O barulho dos carros e motos e computadores parece que se combinam numa sinfonia orquestrada para lançar-me ao desassossego. Um portão se abre, pés e pernas movem-se nervosamente por sobre o concreto que cobre a terra. E em alguns dias serão os meus e as minhas, caminhando cedo, com cheiro de orvalho e brisa, no clarear da manhã, que mover-se-ão rumo ao trabalho.

Entrarei no carro; a partida demorará segundos, como sempre; o carro partirá, e mentalmente executarei as tarefas que me são atribuídas a cada dia, para repeti-las dentro de instantes em algum recinto carregado de suor, de emoção, de tristeza (sim, eu me lembro a cada dia do que aconteceu naquela manhã, quando surpreendi-me com o nome do seu pai no jornal) e de barulho.

E mais um período se inicia, de novo! Ela esperará por mim, para ver-me entrar por aquela porta, esperando nervosamente meu tom de voz seco, por vezes agressivo, e com o qual ela sonha? Ele me esperará, para contar sobre cavalos e fazendas e desventuras rurais? Haverá o mesmo palavrório de sempre naquele lugar, com a benção da pizza frita toda quarta feira, pelo horário do almoço? Encontraremos o mesmo misto de desânimo, medo, empolgação alheia a tudo? É o que espero, para o resto de tudo...


 

Os anos

O poder de cada idade está na proporção de suas convicções. E ela o sabia, pois dizia que achava, mas a tomava como verdade aquela resposta.

Supunha-o novo; pueril, melhor dizendo; bobo, simplificando. Achava-o infantil, pois lhe fugia. Ignorava algumas coisas. E irá ignorar, enquanto a idade não lhe chegar. Para ele, era apenas fingimento, para ela verdade, a ignorância da idade.

Irá lhe responder com fúria, pois ainda terá grande proporção de verdade em suas linhas, pois é próprio de sua idade, e acreditará a sua como definitiva, em suas idéias. Dirá que está errado, que é imbecil. E ele, em parte, acreditará. Para lhe dar o motivo pelo qual sumiu; só queria o descanso do esquecimento. Não queria alimentar monstros de vaidade, mas ser responsável com o que a ela dóia. Não desejava a culpa de lhe haver causado o choro, por alimentar seu próprio ego. Mas isso ela ignora(va).

Quis apenas maturar idéias, aplacar iras e a viu ir. Fe-la ir, por bem dizer. Para não ter de haver-se com sua consciência, que haveria de cobra-lo pelos feitos e não-feitos, ditos e desditos.

Doeu-te? A ele também, por toda parte de si que se desfiz, por medo à sua dor. Abriu mão de coisas que somente certa idade pode-lo-ia permitir-lhe fazer. Mas vai continuar a ser seu menininho de dez anos, se assim o desejar.


 

Surdez

Não ver seu nome deixou de ser um martírio. Pelo menos para mim. No começo, ao imaginar apenas, minha imaginação buscava, em canto recanto da memória, a imagem que correspondesse ao que eu ouvia. Imaginei ser uma, não o era. Ao menos, não aparentava. Um golpe bem planejado? Para que? Bem mais simples seria falar-me. Eu não te ouvia? Talvez estivesse confuso.

Depois, deixei de acreditar em ti, como a mão trêmula que segurava o aparelho. Fria, suada, agarrava o telefone com mais força, para ouvir aquele alô que me seria surdo, em resposta. Gosta da minha voz? Ou espera apenas me tirar o sono?

Deixei de dormir há tempos; Observo apenas o mudar de cor das paredes, nas quais projeto cada visão que penso ter sobre ti, anônima. Espera que eu faça o que? Te diga para não desligar, que serei eternamente seu? Como? Se não te sei? Como, se vou trair a mim mesmo, ao jurar a ninguém o que poderia jurar a uma pessoa?

Ligue-me, cada vez mais constantemente. Continuarei a te imaginar, mordendo os lábios, insegura. Reconstruindo na minha voz a incerteza do seu pensamento. Imaginando malícias quando, do outro lado, não te respondo também. Ligue-me, e viveremos um amor surdo, sem traições. Ligue-me, e conte para elas o que não me ouviu, e que não te fará sofrer. E então seremos felizes.


 

GGM

Parece, às vezes, que encontro em mim um certo desespero. Do que, por que, em que... Jurava não saber. E talvez não saiba, ainda. Mas estou desconfortável.
Fosse talvez um desejo de voar, e voaria. Seria somente ir até a porta, e alçar vôo. Custaria o que? Algumas horas perdidas, o encontro com outros seres, voantes e insondáveis, mas nada que aplacasse a fúria do que quero agora.
Não pegaria em tapetes voadores de ciganos, porque os ciganos se foram, e com eles foi meu filho. Meu filho, aquele das seis voltas ao mundo, com o corpo coberto, inteiro. Neto de meu pai, com seu suave desprendimento de vida embaixo da castanheira, sublime, inerte. Sofria pela morte que causara, ou pela morte que morria?
Talvez fosse vontade ver minha filha, a eterna virgem; a minha neta, a minha bisneta. Mas poderia acalmar-me; abaixo-me e como a terra, tenra. Desfazem-se os torrões duros na liquidez da saliva, que penetra em cada espaço cavado antes pelos vermes da terra.
E então me sento, e escrevo, a você, GGM. Não procuro por todos os lados a imagem de que gostaria de ter aqui, para acha-la apenas em minha mente. Acho-me sozinho em mim mesmo, e me acompanho, e desfaço meus anos de solidão.

Sim, isso mesmo. Você entendeu corretamente. É inspirado e dedicado.


 

Abandono

Um blog abandonado... Estava sem idéias... E também sem tempo! A obsessão em trabalhar mais, ganhar mais, sorrir mais, me fez perder uma determinada inspiração para expor algumas linhas.

Não me sinto bem; fruto do cansaço e da ausência literária. Gosto de escrever, mas ainda falta algo.

Quem sabe, não faltava apenas o recomeçar!


 

Tu

Eles falaram comigo. E muito. Por sua grandeza. Por sua intensidade. Por me penetrarem, mesmo por tuas fotos. Teus olhos. Não tem porque esconde-los atrás destes vidros. Queria-os para mim. Não sei se com ou sem você. Mas sempre teus olhos.

Admirei, por certo, tudo o que estava além deles. Sua inteligência. Seu falar calado, sua timidez sincera. Não poderia falar de sua sinceridade tímida, porque ela me rasgava em nossa conversa. Entendi o que querias dizer? Espero que sim, dentro do que eu gostaria de ter entendido. Não sei se te satisfez, mas a mim bastou.

Criança, parecemos uma feliz armadilha do destino. Te ensinei algumas coisas, você me faz alguns sorrisos. Brincamos de gato e rato? Ou será só meu desejo de ser teu rato, para que tu me persigas e eu, do baixo de minha condição, inverta os instintos e sinta prazer na caçada?

Ah criança, se pudesses ler meus pensamentos agora. Ser-te-ia muito obsceno ver tudo o que pensei? Talvez não, não pensei obscenidades. Mas pensei em nós. Talvez por mera vaidade do desejo, de querer-te por querer. Se te conheço? Quase nada. Se te quero? Queres amor, é isso? Se for assim, não sei dizer. Mas talvez.... A vida é uma seqüência de vários “talvez” que temos a coragem de assumir...


 

Pensamentos desconexos

Um ser estranho habitou meu quarto por vários dias. Grudado ao meu mural de fotos, misturava-se às minhas lembranças (felizes, e algumas, talvez, infelizes). Mal se movia, não sei se se alimentava. Mas gostei dela ali, me olhando. Uma importante sensação de segurança, enquanto velava meus atos. Espero que, ao sumir, não tenha morrido, a pobre pequena lagartixa.

***

Durante o dia, na rodovia, o caminhão de refrigerantes perdeu parte da carga. Adoçou a vida dos transeuntes, também ladrões, que passavam pela via. Durante a noite, na avenida, o caminhão de cervejas perdeu parte da carga. Amargou a vida dos boêmios que aguardavam sua chegada.

***

Ontem pela manhã, a estrada e encompridava cada vez mais, enquanto o sol encompridava os raios no céu. Sensação estranha: o céu me lembrava um desenho animado.

***

À noite, palestra, passeio, permanência. A menina do P me acompanhou. Gostei da companhia. Não se ela diria o mesmo. Noite comportada, com lanches e refrigerantes (na minha honestidade, não era um refrigerante do caminhão, mas um pelo qual eu pagava). Muitas risadas.

***

Uma série de pensamentos do dia, não por sua profundidade, mas por sua concomitância em um mesmo trecho do tempo. Não consegui inspiração para escrever um conto, crônica. Talvez o conto dos contistas, escrito por um contista que no conto encarnava outro, tenha me retirado parte da inspiração. Começava os contos com ele, mas qualquer contista atilado saberia que o ele era ele mesmo, o autor. Tentava expulsar seus demônios interiores projetando-os em um ele fictício. Depois do “eu-lírico”, a melhor criação da literatura foi o “ele-alter ego”.


 

Reprodução



E as meninas tinham ali, naquele momento, um sentimento de estranheza. O que lhes faltava? Um amor, compreensão, uma balada, talvez saúde? Não se sabe. Eles as observavam. No entanto, não as desejava. Aquele estranho sentimento de amizade, existente entre os sexos opostos, os unia acima de tudo.

Talvez um dentre eles não pensasse assim, ou não pensassem assim dele. Talvez houvesse desejo, por parte de alguém, mas não saberia identificar. Seus olhos obviamente reparavam nas qualidades das meninas. Várias, diga-se de passagem. Suculências que se lhe desfilavam aos olhos, e abriam um caminho quase sem volta em sua mente.

Eram suas amigas, mas muitas vezes pensava nas conveniências que a civilização impunha. Fraternidade e lealdade se interpunham ao ciclo reprodutivo, e ele ria, gracejava, até tocava nas meninas; mas aquele toque respeitoso, do amigo que sabe os limites do bom senso. Pensava no quanto matamos as possibilidades da seleção natural ao instituir valores estranhos à natureza humana.

O humano é destruição em sua natureza; há um prazer sádico na brincadeira da criança, que gosta de ver o fogo, não por seu potencial energético, mas naquilo que contém de destrutivo; na criança que bate no amiguinho para impor o respeito; que arremessa coisas em qualquer direção, não por querer afastar de si o objeto indesejado, mas por querer ver o dano causado.

Civilizamo-nos; criamos o Estado, para reproduzir a hierarquia natural do mamífero em seu estado bruto. Criamos a amizade entre homens e mulheres e burlamos o sentido final de nossa permanência aqui, a reprodução e a seleção dos melhores genes. Ele ali, elas ali. E nenhuma possibilidade. Muita responsabilidade. O dever ainda urgia dentro dele, pois seu animal deveria reproduzir-se. Não ali, não naquele plantel.

Olhou o fundo do copo, viu espuma, pediu cerveja. E acrescentou: “Como é bom estar entre amigos.”


 

Marcelo

Até então, me chamava de “sangue”. Sempre completado por uma alcunha que lembrava, a mim e a ele, de um momento de boa vontade: “ô, você é o sangue que me deu a blusa lá”. De outras horas que desejei escrever sobre ele, mas não encontrava aquele clique que sempre nos leva a fazer algo. Ou talvez me leva, pois sou, em boa parte do tempo, um indolente.

Não em relação a meu trabalho; este sempre levei a sério. Mas em missões diversas, como escrever, tomar determinadas atitudes, houve muitas vezes um macilento “deixa pra depois” em meus pensamentos. E assim o foi com ele, e com o que pretendia dizer, até ontem.

Visitar amigos é algo que não vou dizer que seja excepcionalmente bom; gosto, faço-o, mas para me entreter por alguns minutos. Quem me conhece, sabe dos meus “enjoei” ou “quero ir embora”, quando me enfastio das conversas tolas, das risadas inconseqüentes, ou do próprio incômodo que acredito ver nos olhos alheios. Mas ontem não; ontem, ao descer do carro, na rumo da visita a uma amiga, topei com o tal sujeito, o tal que me chama de sangue.

Nunca consigo deixar de notar suas tatuagens. São inúmeras. Desenham sobre ele algo que ele gostaria de ser, ou que se ilude que é. Mas, curioso... Na minha concepção, ele é apenas um morador de rua, ou algo assim. Alguém de agruras, lógico, mas talvez o morar ou não na rua seja um mero detalhe.

Mostrou-me o volume no bolso; um alicate, diz. Para cortar fios que sobram das construções, ou os que ele acha pelas suas andanças, insuspeitos, não temerosos de que alguém os corte. Disso vem sua sobrevivência. Diz ele.

Encostou-se no meu muro há muitos dias atrás. Chovia uma tristeza fria e fina. Gelava o ano que começara sem suas datas. Por isso, talvez, sua imprevidência. Por isso, talvez, encostava ali e me pedia algo para cortar o frio cortante. Dei-lhe a blusa. Ganhei uma conversa. A mesma que se repete até hoje, em linhas gerais, toda vez que o encontro.

Daquele dia, guardei na memória o cheiro de sua mão que apertou a minha. Uma vez, ouvi dizer que um morador de rua se sentia mal porque as pessoas evitavam toca-los. Tinham nojo, medo, algo assim. Aprendi que deveria tocá-los, dar-lhes a mão a apertar, para sentirem-se mais humano. E naquele aperto de mãos, ficou uma reminiscência. Um cheiro. De rua. Que sinto toda vez que o encontro.

Mas qual meu espanto? Por sua lucidez? Por achar ele que, embora usar drogas fosse um crime, deixar filmes pornôs a disposição de crianças era um delito ainda maior, por corromper a base familiar? Por acreditar que os grandes senhores do tráfico são os governantes, para os quais o lucro do tráfico de drogas o impede de acabar com o comércio ilegal? Por me dizer que já conviveu com outros que, depois de consumarem um assassinato, assistiam TV e riam, com o corpo ao lado?

Talvez; não esperava além da amargura. Veio-me uma concepção de mundo. Veio-me alguém que discutia comigo, encostado no muro, exibindo suas tatuagens, sobre os rumos e planos do governo, sobre o valor da família, sobre a criminalidade. Que muitos dos que o olham acreditam que faça parte. Eu não acredito. Para mim, ontem, ele se tornou ainda mais real, ao dizer: “Eu me chamo Marcelo. Vai com Deus sangue”.


 

O impostor da madrugada

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Algumas me vezes, me pego rindo da vida e das pequenas coisas que vão inundando o dia a dia. Ontem, durante a noite, foi uma dessas vezes em que me senti em um estado “Alice no país das maravilhas”.

Obviamente, quem lê esses posts aqui sabe, e muito bem, que situações inusitadas são meu forte. A escalada do muro do cemitério para uma foto incomum, na qual se diluíram as fronteiras entre a terra dos vivos e dos mortos. O indiscreto roubo do pé de pimenta, articulado por um ladrão apreciador de iguarias.

Mas a noite de ontem foi diferente. Nada de saltos e agarros a concreto, nem de criminosos. Por um momento pensei nisso, mas uma boa lanterna e uma dose de coragem fizeram com que eu conseguisse ir ao quintal e ver o que tanto alarmava minha basset. É, isso mesmo, um homem desse tamanho, que tem uma basset e muito medo!

Mas o que me alegra é que ela não é uma dessas cachorras histriônicas, que se largam a latir pelas folhas que balançam. Ela é contida, reservada. Dá o alarme nas horas próprias, e só incomoda meu sono se absolutamente necessário! O que talvez, em sua concepção (canina, é claro) fosse indispensável.

Lanterna à mão, vaguei pelo modesto quintal em busca de pistas, provas de uma irrupção inoportuna do mal-afamado ladrão. A luz percorreu os galhos das árvores, varreu o chão do quintal e também o telhado, e nada! Absolutamente nada. Mas o cão estava lá, alerta. O que a incomodava tanto?

Em um pequeno relance, a luz encontrou o alvo. Postado em uma posição incômoda, apoiado em cima do pedaço de madeira que sustenta nosso varal. Nessa antiga e interiorana armação, bem em seu topo, jazia um rato. Jazia, pois estava morto já, dependendo do tempo apenas para consumar sua situação. A cadelinha não deixaria escapar sua vítima, que vidrava os olhos em tudo ao redor, sem ter como escapar.

Entre os pensamentos animais que me tomaram a cabeça, imaginava o que pensava o pobre roedor, dizendo de si para si “Cheguei até aqui, e agora?”.

Agora, infelizmente não sei mais. Nem sei mais se o pobre rato ainda pensa, se um dia chegou a fazer isso. Mas o pensamento de comiseração de tomou conta de mim naquele momento mudou o rumo da vassoura, que se ergueu do chão e acertou-o por baixo, fazendo-o voar para além dos muros. Ainda assim, estou vítima do desassossego. Serão os roedores vingativos?


 

Baseado em furtos reais

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E eu juro que não estava entendendo nada!

Como assim? Pra que uma coisa dessas? Bom, no final das contas, ele havia entrado ali, com um objetivo claro, certeiro: furtar!

Mas não era qualquer furto; quem furta qualquer coisa é moleque cheirador de cola. E desses, curioso, o dono da casa tinha ódio! Imagine, poderiam entrar na sua casa e roubar a toalha no varal... Pensa bem, que coisa mais fuleira!

Mas não; o dono da casa admirava os grandes ladrões, aqueles que fazem do furto uma arte (e por que não seria?). Planejamento, espera, atitude rápida e decisiva; lucro no bolso, ou nas mãos mesmo, correria pra um boteco, tomaria uma pinga, riria do dono da casa que ali dormia, incólume, sem saber que, logo ali, alguém lhe tirava um bem.

Seria precioso para o dono da casa? Qual o valor daquilo? De certa forma, esses pensamentos concorriam com outros; transpiravam-lhe as mãos. Era um furto, decerto. Mas que mal haveria? Para ele, o ladrão, aquilo não era nenhum crime hediondo. O bem estava ali, bem nas fuças de quem quisesse ver! E claro, tivesse a coragem de levar.

Ele teve, mesmo debaixo daquela chuva torrencial. Pensou que, de alguma forma, seria bom para ele. Pulou o muro, baixo, que convidava ao delito. Suas mãos procuraram o melhor ângulo, calculou a força, puxou dali seu produto e evadiu-se, tomando rumo ignorado.

O dono da casa acordou, abriu a janela e, no primeiro momento, não entendeu. "Mas é o fim da picada... Roubaram meu pé de pimenta!"


 

Fronteira

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Algumas vezes, a fronteira quase não existe.

Algumas vezes, olho para os lados, e quero descobrir onde se deitam os mortos.

Algumas vezes, falta descobrir onde a vida se esconde e se encontra.


 

Pensamento do dia!

Hoje, nada de post profundo, sentimental.

Vou narrar uma situação, digamos, trágico-comum-cômica!

Estava eu, no meu modesto carro 1.0, indo trabalhar pela manhã. 7 e meia da manhã, e me encaminho para o colégio, dirigindo pelas margens do Igapó, toda arborizada, que me fornece uma sombra aprazível e uma vista que admiro.

No som, Zeca Baleiro e sua vontade de mandar flores ao delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia. E assim, dava bom dia ao transeuntes, mesmo que eles não o soubessem.

Eis que cresce em meu retrovisor a figura de um outro veículo, de potência igual, mas talvez de compromissos mais urgentes. E me lança um sinal de luz para que eu acelere, pois ele tem pressa, e não pode me ultrapassar.

Penso no absurdo da situação ao verificar no velocímetro os 40 quilômetros por hora da lei e a minha petulância em segui-la.

Moral da história: Quer irritar alguém no trânsito? Cumpra as normas!


 

Aquela senhora

Aquela mulher na janela me diz muito. Mesmo calada. Observo só. Não quero dizer nada. Ou deveria dizer, mas não posso. Ou não consigo. Não entendo bem. Preferi escrever, assim seria mais leve e mais solto do que balbuciando coisas que, à pena, parecem muito mais elegantes e vívidas. Aquela mulher é minha mãe.

Nunca escrevi crônicas; se as escrevi, desconheço. Este misto de literatura e jornalismo, acrescentando algo de pessoal, é muito descritivo para ser verdade. Sempre narrei; narro minha vida cada dia, e vejo em tudo essas narrações. E nelas, a senhora está sempre presente. E acho engraçado agora, olhar pela janela através de você e pensar nisso, que será lido por “alguéns” que nem nos conhecem.

Alguns vão entende, e a eles dedico meu muito obrigado. Outros não entenderão, e talvez considerarão uma infantilidade guardar espaço num jornal pra uma declaração de amor filial. Para vocês, meu muito obrigado também, por tornar isso ainda mais um exercício de demonstrar que, além disso, o que vai aqui são linhas de um forte afeto, de amizade, de respeito, de admiração.

Aquela senhora das risadas, senhora de situações constrangedoras (às vezes, não é? E quem não se constrange consigo mesmo?), senhora dos pastéis de feira na quarta feira à noite, dos espetinhos no final de tarde, do jogo do bicho ao longo do dia (E ae mãe, ganhou? Não? Hunf!). A senhora da hipocondria cômica, quando rimos jogando fora remédios vencidos. A senhora das frases impensadas (Ah, essa música é do tempo da dentadura? Não mãe, da ditadura! Ah, mas é velha do mesmo jeito, tinha que usar dentadura mesmo!). A senhora-alvo das brincadeiras de alguns amigos (que Deus perdoe vossa língua, companheiros!), a senhora que tornou tudo isso possível.

Não queria que este texto parecesse um obituário, dizendo tudo de bom que ela fez, como me fez feliz, como tornou tudo mágico. Jamais! Espero que esse texto sirva, de alguma forma, não para mim, não para ela. Sirva para aqueles que não conseguem pensar nas suas próprias mães sem uma pitada de amargura, um pedaço de cólera, um pensamento de tristeza. É a vocês que dedico esse texto, não para invejarem, mas para pensarem diferente.

Afinal de contas, a literatura toda deveria ter esse mesmo objetivo: tornar a vida leve, lúdica. Não que os textos de dor e sofrimento não me agradem; ao contrário, eles me tornam mais humano. Humano como aquela senhora.

Hoje perguntei a ela se tinha medo de morrer; já viveu sessenta anos, e talvez esse não seja um fim próximo, mas inevitável. Ela me disse que não, só não queria que fosse de “morte matada”. Nunca quis morrer dormindo, talvez sua consciência queira ver isso de perto. Mas sabe o que eu penso da morte, mãe? Que ela vai chegar, e isso não podemos mudar. Mas é justamente ela que torna tudo mais interessante. É pela espera da morte que vivemos, e queremos ser mais intensos a cada dia.

Fico feliz por estar hoje a seu lado e pensar que esse dia final demore. Ainda vamos rir muito da vida, por tudo que ela quis fazer com a gente e evitamos. Ou mesmo naquelas coisas que não conseguimos evitar, mas que conseguimos nos levantar depois. Afinal, você estava lá, e tudo isso foi muito bom. Obrigado, mãe!


Publicado no jornal Folha de Londrina


 

Ainda (Pedro A. Magalhães)

Vou dizendo
Certas coisas
Vou sabendo
Certas outras
São verdades
são procuras
Amizades
Aventuras
Quem alcança
Mora longe
Da mudança
Do seu nome
Alegria
Vão tristeza
Fantasia
Incerteza
São verdades
São procuras
Amizades
Aventuras
Quem avança
Guarda o amor
Guarda a esperança
Sem favor
Ainda
Ainda
Ainda
Ainda



 

Autobiografia alheia

Não, não começaria mais um texto com interrogações. Iago pensou, hesitou, e decidiu: Sim, poderia escrever sobre todos os seus dias. Afinal de contas, escritores por toda parte escrevem sobre um dia. Por que não escrever sobre todos os seus dias?

Lógico que isso não poderia começar com uma interrogação. Imagine. Colocar na mente das pessoas que sua vida era uma eterna dúvida. Jamais. Apesar de que, no momento de escrever, sentiu-se agoniado. De novo, sobre ele mesmo? Não havia alguém dito que escrever auto-biografias era uma chatice, depois de algum tempo? "Certo, vou jogar a culpa em outro alguém", e começou.

Iago escreveu sobre Romeu, não aquele da tragédia (achou muito burlesco, e repetitivo). Narrou a vida do homem atormentado, insone, cujos dias se arrastavam e se repetiam na mesmice. Romeu não era um cara mau; era difícil. Tinha pensamentos vagos e tolos, muitas vezes, mas conseguia se apegar a coisas elevadas. Possuía grandes projetos, coisas que talvez, um dia, mudariam o mundo, o modo de as pessoas pensarem, ou talvez mudassem somente a si mesmo. Pensava em fama, em glória, em eternidade. Lembrou de Karl Marx, sua pobreza, seus vários filhos e a mulher costureira. E pensem: até hoje ele é citado, lido, estudado. Mal assimilado, é verdade, mas é famoso.

Quanto aquele pobre homem havia sofrido. Romeu não sofria. Talvez apenas de estar sozinho em casa, olhando pela janela o frio que se aproximava, narrado em sua viagem pelos ventos que alisavam seu rosto e o encrespavam. As folhas faziam um barulho curioso, uma triste jornada em meio a calçada, e Romeu decidiu: seria cronista. Contaria das coisas que viu e sentiu e ouviu, e assim as pessoas o entenderiam. Diriam: caramba, como ele escreve bem. E sentou-se ao computador.

Sentiu-se um traidor àquela hora: não era do computador que haviam saído os clássicos, deveria escrever à mão. Mas, sobre as folhas? Lera no jornal sobre a névoa, ou sobre algo parecido. Lera sobre o bêbado que cantara na avenida às quatro e meia da manhã. Aquilo sim era um texto. Ele, tão miserável em seu ofício de letras, conseguiria transmitir tamanha sensação ao escrever sobre as folhas que rolavam calçada abaixo?

Iago parou, olhou, e sentiu-se orgulhoso. Saía ali uma história que não era auto-biográfica. Não seria o chato da literatura. Conseguiu escrever sobre alguém que não existia, sobre alguém que não conhecia. Escreveu sobre si mesmo.


 

Preciso ligar pra ele

A moça do outro lado da linha disse algo estranho. Parecia incompreensível, falando que tinha que ligar para “ele”. Quem é ele? A dúvida me surgiu na hora. Mas ela falava com alguém, não comigo. Um enorme ruído de pessoas atrás dela tornava o ambiente ainda mais indecifrável.

Vamos falar a verdade: nem ela eu sei quem é. Chama-se Thaís, ou Taís, mas isso não é importante agora. Ou é? Não sei dizer, mas acho que ela não ficaria satisfeita se lesse esse texto nesse momento. Dizer que seu nome não tem importância. Menina, me escute: se que uma letra faz toda essa diferença?

E continuava me perguntando: seria loira ou morena? Alta, baixa, gorda, magra, bonita, feia, com ou sem óculos? Tinha alegria de viver, ou arrastava seus dias, por trás daquele telefone? Será que ela me conhecia? Bom, algo de mim ela sabia, pois me ligava. E não era apenas uma vez, mas várias.

Alguém disse que talvez fosse por gostar de ouvir minha voz. Cheguei até a acreditar, pois não queria comprar o que tinha a me vender. Mas a ilusão se dissipou. Ela sabe de mim tanto quanto eu sei dela. Mas ela quer algo de mim; quanto a mim, não tenho certeza se quero alguma coisa, quanto mais dela.

Mas a frase continuava ali: “preciso ligar pra ele”! Ela tinha consciência? Precisava mesmo? Talvez um supervisor mal-humorado, arrogante por não mais estar na posição que ela ocupava a forçasse a ligar. “Ligue, venda, ganhe, seja feliz, esteja no meu lugar”. Ela gostaria de estar no lugar dele? Seria uma universitária, cheia de planos para o futuro e de aborrecimentos para o presente?

Passaria pelo meu lado na rua, talvez rindo, cochichando algo com as amigas, planejando a noite de quarta-feira. Talvez me olhasse, pensasse em algo, até me desejasse. Ou mesmo execrasse, vai saber. Essas mulheres e suas confusões de não querer... Mas jamais saberia, ali, naquele momento, que eu havia pensado nela. Bom, tudo bem, não vou te chamar e egoísta. Eu mesmo não saberia que foi pra você que escrevi isso, quando ouvi na secretária eletrônica sua frase, imaginando que você havia esquecido de desligar o telefone.


 

Deusa Coroada

Para Sara

Hoje calçarei meu All Star preto em sua homenagem. Vou te acompanhar ao cinema, ver uma história de amor. Queria te levar no meu tapete voador, mas isso é bobagem. Muitas vezes só as bobagens nos adoçam as bocas com o sorriso. Mas nenhum seria mais doce que o seu.

Uso meu tênis para que você retome sua infância, de ilusões cruéis e de pensamentos perdidos. Mas para que você, num pequeno momento, ria-se de mim, ao se pensar pequena, correndo aqui e ali. Você ainda corre aqui e ali, e me encanto com você, minha deusa coroada.

Não queria te chamar assim, a princípio. Pareceria plágio. Mas de que forma definir, se não pelas palavras de Ariza, o amor, respeito e admiração que terei e nutrirei por ti, durante os próximos cinqüenta anos? Deveria te enviar uma camélia branca, como sinal de compromisso, mas te mando apenas essas palavras, como amostra de sua grandeza.


 

Sem título!

Para que praticamos a arte literária? Não sou literato, não posso responder. Mas também, quem disse que precisa ser literato para saber das coisas das letras? Por acaso preciso estudar a música para acha-la bela? Não sou músico, mas aprecio a arte do som. Arte do som, que parte do vazio da surdez.

Seria o criador do universo surdo? Porque ele mesmo não criou a música, deixou que os homens a criassem. E não se encantou ele com a sonoridade humana, pois sempre destruiu tudo ao redor com sons que nem ao menos tem harmonia. Imaginemos como deve ser uma partitura divina. Se é que existe, pois o som dos terremotos e das tsunamis não é dos mais harmônicos.

Bom, mas falávamos de literatura, de escrever e de tudo que preenche os espaços em branco com pequenas maravilhas que chamamos letras. O criador não deve gostar de ler, nem de escrever, se é que o sabe, pois o homem criou a escrita. E como fez bobagens com ela.


 
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