Ainda somos os mesmos!

Marcelo

Até então, me chamava de “sangue”. Sempre completado por uma alcunha que lembrava, a mim e a ele, de um momento de boa vontade: “ô, você é o sangue que me deu a blusa lá”. De outras horas que desejei escrever sobre ele, mas não encontrava aquele clique que sempre nos leva a fazer algo. Ou talvez me leva, pois sou, em boa parte do tempo, um indolente.

Não em relação a meu trabalho; este sempre levei a sério. Mas em missões diversas, como escrever, tomar determinadas atitudes, houve muitas vezes um macilento “deixa pra depois” em meus pensamentos. E assim o foi com ele, e com o que pretendia dizer, até ontem.

Visitar amigos é algo que não vou dizer que seja excepcionalmente bom; gosto, faço-o, mas para me entreter por alguns minutos. Quem me conhece, sabe dos meus “enjoei” ou “quero ir embora”, quando me enfastio das conversas tolas, das risadas inconseqüentes, ou do próprio incômodo que acredito ver nos olhos alheios. Mas ontem não; ontem, ao descer do carro, na rumo da visita a uma amiga, topei com o tal sujeito, o tal que me chama de sangue.

Nunca consigo deixar de notar suas tatuagens. São inúmeras. Desenham sobre ele algo que ele gostaria de ser, ou que se ilude que é. Mas, curioso... Na minha concepção, ele é apenas um morador de rua, ou algo assim. Alguém de agruras, lógico, mas talvez o morar ou não na rua seja um mero detalhe.

Mostrou-me o volume no bolso; um alicate, diz. Para cortar fios que sobram das construções, ou os que ele acha pelas suas andanças, insuspeitos, não temerosos de que alguém os corte. Disso vem sua sobrevivência. Diz ele.

Encostou-se no meu muro há muitos dias atrás. Chovia uma tristeza fria e fina. Gelava o ano que começara sem suas datas. Por isso, talvez, sua imprevidência. Por isso, talvez, encostava ali e me pedia algo para cortar o frio cortante. Dei-lhe a blusa. Ganhei uma conversa. A mesma que se repete até hoje, em linhas gerais, toda vez que o encontro.

Daquele dia, guardei na memória o cheiro de sua mão que apertou a minha. Uma vez, ouvi dizer que um morador de rua se sentia mal porque as pessoas evitavam toca-los. Tinham nojo, medo, algo assim. Aprendi que deveria tocá-los, dar-lhes a mão a apertar, para sentirem-se mais humano. E naquele aperto de mãos, ficou uma reminiscência. Um cheiro. De rua. Que sinto toda vez que o encontro.

Mas qual meu espanto? Por sua lucidez? Por achar ele que, embora usar drogas fosse um crime, deixar filmes pornôs a disposição de crianças era um delito ainda maior, por corromper a base familiar? Por acreditar que os grandes senhores do tráfico são os governantes, para os quais o lucro do tráfico de drogas o impede de acabar com o comércio ilegal? Por me dizer que já conviveu com outros que, depois de consumarem um assassinato, assistiam TV e riam, com o corpo ao lado?

Talvez; não esperava além da amargura. Veio-me uma concepção de mundo. Veio-me alguém que discutia comigo, encostado no muro, exibindo suas tatuagens, sobre os rumos e planos do governo, sobre o valor da família, sobre a criminalidade. Que muitos dos que o olham acreditam que faça parte. Eu não acredito. Para mim, ontem, ele se tornou ainda mais real, ao dizer: “Eu me chamo Marcelo. Vai com Deus sangue”.

Publicado em 17 de fevereiro de 2008 às 11:11 por lcmanini

Comentários

    • Olha só! Descobriu o nome do andante? Marcelo... belo nome.
    • por miguel, Miguel
    • 17.Fev.2008 às 08:11 - Permalink - Reportar
    miguel
    • dizem ser marcelo mar e céu!
    • por zero, essa é do antonio cícero
    • 17.Fev.2008 às 15:14 - Permalink - Reportar
    zero
    • e aí, Sangue?? hehehe.... to ausente... mas espera passar essa louca correria! hoje consegui até ler seu blog no tipos... olha só! já estou evoluindo. semana que vem as coisas melhoram!.. bjs
    • por sara
    • 19.Fev.2008 às 18:27 - Permalink - Reportar
    sara
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