E as meninas tinham ali, naquele momento, um sentimento de estranheza. O que lhes faltava? Um amor, compreensão, uma balada, talvez saúde? Não se sabe. Eles as observavam. No entanto, não as desejava. Aquele estranho sentimento de amizade, existente entre os sexos opostos, os unia acima de tudo.
Talvez um dentre eles não pensasse assim, ou não pensassem assim dele. Talvez houvesse desejo, por parte de alguém, mas não saberia identificar. Seus olhos obviamente reparavam nas qualidades das meninas. Várias, diga-se de passagem. Suculências que se lhe desfilavam aos olhos, e abriam um caminho quase sem volta em sua mente.
Eram suas amigas, mas muitas vezes pensava nas conveniências que a civilização impunha. Fraternidade e lealdade se interpunham ao ciclo reprodutivo, e ele ria, gracejava, até tocava nas meninas; mas aquele toque respeitoso, do amigo que sabe os limites do bom senso. Pensava no quanto matamos as possibilidades da seleção natural ao instituir valores estranhos à natureza humana.
O humano é destruição em sua natureza; há um prazer sádico na brincadeira da criança, que gosta de ver o fogo, não por seu potencial energético, mas naquilo que contém de destrutivo; na criança que bate no amiguinho para impor o respeito; que arremessa coisas em qualquer direção, não por querer afastar de si o objeto indesejado, mas por querer ver o dano causado.
Civilizamo-nos; criamos o Estado, para reproduzir a hierarquia natural do mamífero em seu estado bruto. Criamos a amizade entre homens e mulheres e burlamos o sentido final de nossa permanência aqui, a reprodução e a seleção dos melhores genes. Ele ali, elas ali. E nenhuma possibilidade. Muita responsabilidade. O dever ainda urgia dentro dele, pois seu animal deveria reproduzir-se. Não ali, não naquele plantel.
Olhou o fundo do copo, viu espuma, pediu cerveja. E acrescentou: “Como é bom estar entre amigos.”