Ainda somos os mesmos!

Koyaanisqatsi

Casa na árove

Há no humano uma obscura obsessão pela destruição. Pela falta de equilíbrio. Out of balance. Não desejo, mas só curiosidade. De ver. De sentir. Toda aquela desfaçatez da lógica que antes construía algo. E assim se sentia, como qualquer humano. Até que se deitou. E dormiu.

O calor estava lancinante, Corroia as bordas do seu ser. Derretia-o. E escorria. E como. E o calor, subitamente, transformou-se em vento. No roçar com seus lençóis, sentiu-se bem. E virou-se. E esperou a próxima rajada.

E veio o assobio. Cortante. Uivante. Brönte. Incomodou-se, mas não ao ponto de notar a iminência do desastre. Mas sentiu sua face franzir-se. Algo estava errado. Desde o momento em que deitara. Pensara que eram apenas aqueles pensamentos recorrentes, que não o abandonavam. Mas não. Ou sim, não fosse o pressentimento que sentira a posteriori.

Um barulho de trovão. Grande, intenso. Enlouquecedor. Mas não brilhara. E aumentava. E o assustava. E o fez levantar às pressas, para buscar sua causa. E viu sua casa, abalada. Triste. Máscula. Segurando o peso do velho vegetal. Em suas paredes tão frágeis. Como se fossem rochas do velho mar.

Sentiu-se um iraquiano, ao retirar os destroços. Sentiu-se um sem-terra, ao cobrir-se na lona preta. E sentia-se fascinantemente atraído por tal destruição. Embora de sua própria casa. Mas sentiu-se feliz. Por estar ali, vivo ainda.

Publicado em 02 de novembro de 2008 às 10:24 por lcmanini

De algum tempo atrás

E um dia começou. Parecia passageiro, rápido. Necessário. Algumas pessoas agradeciam, outras maldiziam. Para que? Havia sua necessidade e precisão. Eu me tornava doente, algo me incomodava com a sua ausência. O céu estava escuro, cinza. Pesado. E não mudava. O humor das pessoas tornou-se escuro, cinza. Pesado.

Enfim, se acostumaram.

Acidentes ocorreram. Pessoas perdiam o controle em sua presença. Outras corriam, não se sabe se por medo ou para admira-la. Mas todos a notavam. Parecia uma daquelas grandes mulheres de alguma importância que aparecem para dar um brilho especial na festa. Mas sua presença longa fez o brilho sumir.

Apagou-se.

Tudo ficou baço, úmido, gelado. Inclusive eu. Algo me corroia, corroia o mundo, corria pela janela. Eu acompanhava seus traços, seus desenhos. Ouvia seus sons. Percebia sua presença. E não podia afastá-la. Não conseguia. Nem ninguém. E havia um medo. Tal qual a morte. Mas a morte é diferente. Ela vem ou aos poucos, ou de repente, e é irrevogável. Eu te vi, chegando ao longe. Achei que era por pouco. Tamborilei os dedos olhando lá fora.

A chuva durou muito tempo.

Publicado em 09 de agosto de 2008 às 19:24 por lcmanini

A crônica do fim

Os últimos dias de férias são como aqueles primeiros da grande viagem que você faz, pela primeira vez na vida. Tudo parece estranho, mas existe uma sensação indecifrável no ar. Hoje, o dia amanheceu cinzento, morno, macilento. Uma triste nostalgia percorre tudo. Penso em tudo o que aconteceu há alguns dias, e me parece um passado longínquo, o qual me dá saudades.

De repente, penso no trabalho, e algo me parece irreal em tudo aquilo. Como se tudo já houvesse passado, como se nada mais fosse tangível. Como se em algum lugar tudo se perdera, e eu apenas pudesse achá-lo nos recantos das minhas memórias. Mas é nesse momento que tudo volta. A tensão do trabalho, as atividades por preparar, aquelas para serem concluídas, as cobranças, os prazeres e as dores.

Tudo isso me atormenta nesse dia cinzento, morno e macilento. O barulho dos carros e motos e computadores parece que se combinam numa sinfonia orquestrada para lançar-me ao desassossego. Um portão se abre, pés e pernas movem-se nervosamente por sobre o concreto que cobre a terra. E em alguns dias serão os meus e as minhas, caminhando cedo, com cheiro de orvalho e brisa, no clarear da manhã, que mover-se-ão rumo ao trabalho.

Entrarei no carro; a partida demorará segundos, como sempre; o carro partirá, e mentalmente executarei as tarefas que me são atribuídas a cada dia, para repeti-las dentro de instantes em algum recinto carregado de suor, de emoção, de tristeza (sim, eu me lembro a cada dia do que aconteceu naquela manhã, quando surpreendi-me com o nome do seu pai no jornal) e de barulho.

E mais um período se inicia, de novo! Ela esperará por mim, para ver-me entrar por aquela porta, esperando nervosamente meu tom de voz seco, por vezes agressivo, e com o qual ela sonha? Ele me esperará, para contar sobre cavalos e fazendas e desventuras rurais? Haverá o mesmo palavrório de sempre naquele lugar, com a benção da pizza frita toda quarta feira, pelo horário do almoço? Encontraremos o mesmo misto de desânimo, medo, empolgação alheia a tudo? É o que espero, para o resto de tudo...

Publicado em 22 de julho de 2008 às 13:59 por lcmanini

Os anos

O poder de cada idade está na proporção de suas convicções. E ela o sabia, pois dizia que achava, mas a tomava como verdade aquela resposta.

Supunha-o novo; pueril, melhor dizendo; bobo, simplificando. Achava-o infantil, pois lhe fugia. Ignorava algumas coisas. E irá ignorar, enquanto a idade não lhe chegar. Para ele, era apenas fingimento, para ela verdade, a ignorância da idade.

Irá lhe responder com fúria, pois ainda terá grande proporção de verdade em suas linhas, pois é próprio de sua idade, e acreditará a sua como definitiva, em suas idéias. Dirá que está errado, que é imbecil. E ele, em parte, acreditará. Para lhe dar o motivo pelo qual sumiu; só queria o descanso do esquecimento. Não queria alimentar monstros de vaidade, mas ser responsável com o que a ela dóia. Não desejava a culpa de lhe haver causado o choro, por alimentar seu próprio ego. Mas isso ela ignora(va).

Quis apenas maturar idéias, aplacar iras e a viu ir. Fe-la ir, por bem dizer. Para não ter de haver-se com sua consciência, que haveria de cobra-lo pelos feitos e não-feitos, ditos e desditos.

Doeu-te? A ele também, por toda parte de si que se desfiz, por medo à sua dor. Abriu mão de coisas que somente certa idade pode-lo-ia permitir-lhe fazer. Mas vai continuar a ser seu menininho de dez anos, se assim o desejar.

Publicado em 15 de julho de 2008 às 18:04 por lcmanini

Surdez

Não ver seu nome deixou de ser um martírio. Pelo menos para mim. No começo, ao imaginar apenas, minha imaginação buscava, em canto recanto da memória, a imagem que correspondesse ao que eu ouvia. Imaginei ser uma, não o era. Ao menos, não aparentava. Um golpe bem planejado? Para que? Bem mais simples seria falar-me. Eu não te ouvia? Talvez estivesse confuso.

Depois, deixei de acreditar em ti, como a mão trêmula que segurava o aparelho. Fria, suada, agarrava o telefone com mais força, para ouvir aquele alô que me seria surdo, em resposta. Gosta da minha voz? Ou espera apenas me tirar o sono?

Deixei de dormir há tempos; Observo apenas o mudar de cor das paredes, nas quais projeto cada visão que penso ter sobre ti, anônima. Espera que eu faça o que? Te diga para não desligar, que serei eternamente seu? Como? Se não te sei? Como, se vou trair a mim mesmo, ao jurar a ninguém o que poderia jurar a uma pessoa?

Ligue-me, cada vez mais constantemente. Continuarei a te imaginar, mordendo os lábios, insegura. Reconstruindo na minha voz a incerteza do seu pensamento. Imaginando malícias quando, do outro lado, não te respondo também. Ligue-me, e viveremos um amor surdo, sem traições. Ligue-me, e conte para elas o que não me ouviu, e que não te fará sofrer. E então seremos felizes.

Publicado em 12 de julho de 2008 às 12:09 por lcmanini

GGM

Parece, às vezes, que encontro em mim um certo desespero. Do que, por que, em que... Jurava não saber. E talvez não saiba, ainda. Mas estou desconfortável.
Fosse talvez um desejo de voar, e voaria. Seria somente ir até a porta, e alçar vôo. Custaria o que? Algumas horas perdidas, o encontro com outros seres, voantes e insondáveis, mas nada que aplacasse a fúria do que quero agora.
Não pegaria em tapetes voadores de ciganos, porque os ciganos se foram, e com eles foi meu filho. Meu filho, aquele das seis voltas ao mundo, com o corpo coberto, inteiro. Neto de meu pai, com seu suave desprendimento de vida embaixo da castanheira, sublime, inerte. Sofria pela morte que causara, ou pela morte que morria?
Talvez fosse vontade ver minha filha, a eterna virgem; a minha neta, a minha bisneta. Mas poderia acalmar-me; abaixo-me e como a terra, tenra. Desfazem-se os torrões duros na liquidez da saliva, que penetra em cada espaço cavado antes pelos vermes da terra.
E então me sento, e escrevo, a você, GGM. Não procuro por todos os lados a imagem de que gostaria de ter aqui, para acha-la apenas em minha mente. Acho-me sozinho em mim mesmo, e me acompanho, e desfaço meus anos de solidão.

Sim, isso mesmo. Você entendeu corretamente. É inspirado e dedicado.

Publicado em 17 de maio de 2008 às 20:49 por lcmanini

Abandono

Um blog abandonado... Estava sem idéias... E também sem tempo! A obsessão em trabalhar mais, ganhar mais, sorrir mais, me fez perder uma determinada inspiração para expor algumas linhas.

Não me sinto bem; fruto do cansaço e da ausência literária. Gosto de escrever, mas ainda falta algo.

Quem sabe, não faltava apenas o recomeçar!

Publicado em 14 de abril de 2008 às 07:34 por lcmanini

Tu

Eles falaram comigo. E muito. Por sua grandeza. Por sua intensidade. Por me penetrarem, mesmo por tuas fotos. Teus olhos. Não tem porque esconde-los atrás destes vidros. Queria-os para mim. Não sei se com ou sem você. Mas sempre teus olhos.

Admirei, por certo, tudo o que estava além deles. Sua inteligência. Seu falar calado, sua timidez sincera. Não poderia falar de sua sinceridade tímida, porque ela me rasgava em nossa conversa. Entendi o que querias dizer? Espero que sim, dentro do que eu gostaria de ter entendido. Não sei se te satisfez, mas a mim bastou.

Criança, parecemos uma feliz armadilha do destino. Te ensinei algumas coisas, você me faz alguns sorrisos. Brincamos de gato e rato? Ou será só meu desejo de ser teu rato, para que tu me persigas e eu, do baixo de minha condição, inverta os instintos e sinta prazer na caçada?

Ah criança, se pudesses ler meus pensamentos agora. Ser-te-ia muito obsceno ver tudo o que pensei? Talvez não, não pensei obscenidades. Mas pensei em nós. Talvez por mera vaidade do desejo, de querer-te por querer. Se te conheço? Quase nada. Se te quero? Queres amor, é isso? Se for assim, não sei dizer. Mas talvez.... A vida é uma seqüência de vários “talvez” que temos a coragem de assumir...

Publicado em 16 de março de 2008 às 22:42 por lcmanini

Pensamentos desconexos

Um ser estranho habitou meu quarto por vários dias. Grudado ao meu mural de fotos, misturava-se às minhas lembranças (felizes, e algumas, talvez, infelizes). Mal se movia, não sei se se alimentava. Mas gostei dela ali, me olhando. Uma importante sensação de segurança, enquanto velava meus atos. Espero que, ao sumir, não tenha morrido, a pobre pequena lagartixa.

***

Durante o dia, na rodovia, o caminhão de refrigerantes perdeu parte da carga. Adoçou a vida dos transeuntes, também ladrões, que passavam pela via. Durante a noite, na avenida, o caminhão de cervejas perdeu parte da carga. Amargou a vida dos boêmios que aguardavam sua chegada.

***

Ontem pela manhã, a estrada e encompridava cada vez mais, enquanto o sol encompridava os raios no céu. Sensação estranha: o céu me lembrava um desenho animado.

***

À noite, palestra, passeio, permanência. A menina do P me acompanhou. Gostei da companhia. Não se ela diria o mesmo. Noite comportada, com lanches e refrigerantes (na minha honestidade, não era um refrigerante do caminhão, mas um pelo qual eu pagava). Muitas risadas.

***

Uma série de pensamentos do dia, não por sua profundidade, mas por sua concomitância em um mesmo trecho do tempo. Não consegui inspiração para escrever um conto, crônica. Talvez o conto dos contistas, escrito por um contista que no conto encarnava outro, tenha me retirado parte da inspiração. Começava os contos com ele, mas qualquer contista atilado saberia que o ele era ele mesmo, o autor. Tentava expulsar seus demônios interiores projetando-os em um ele fictício. Depois do “eu-lírico”, a melhor criação da literatura foi o “ele-alter ego”.

Publicado em 08 de março de 2008 às 10:33 por lcmanini

Reprodução



E as meninas tinham ali, naquele momento, um sentimento de estranheza. O que lhes faltava? Um amor, compreensão, uma balada, talvez saúde? Não se sabe. Eles as observavam. No entanto, não as desejava. Aquele estranho sentimento de amizade, existente entre os sexos opostos, os unia acima de tudo.

Talvez um dentre eles não pensasse assim, ou não pensassem assim dele. Talvez houvesse desejo, por parte de alguém, mas não saberia identificar. Seus olhos obviamente reparavam nas qualidades das meninas. Várias, diga-se de passagem. Suculências que se lhe desfilavam aos olhos, e abriam um caminho quase sem volta em sua mente.

Eram suas amigas, mas muitas vezes pensava nas conveniências que a civilização impunha. Fraternidade e lealdade se interpunham ao ciclo reprodutivo, e ele ria, gracejava, até tocava nas meninas; mas aquele toque respeitoso, do amigo que sabe os limites do bom senso. Pensava no quanto matamos as possibilidades da seleção natural ao instituir valores estranhos à natureza humana.

O humano é destruição em sua natureza; há um prazer sádico na brincadeira da criança, que gosta de ver o fogo, não por seu potencial energético, mas naquilo que contém de destrutivo; na criança que bate no amiguinho para impor o respeito; que arremessa coisas em qualquer direção, não por querer afastar de si o objeto indesejado, mas por querer ver o dano causado.

Civilizamo-nos; criamos o Estado, para reproduzir a hierarquia natural do mamífero em seu estado bruto. Criamos a amizade entre homens e mulheres e burlamos o sentido final de nossa permanência aqui, a reprodução e a seleção dos melhores genes. Ele ali, elas ali. E nenhuma possibilidade. Muita responsabilidade. O dever ainda urgia dentro dele, pois seu animal deveria reproduzir-se. Não ali, não naquele plantel.

Olhou o fundo do copo, viu espuma, pediu cerveja. E acrescentou: “Como é bom estar entre amigos.”

Publicado em 25 de fevereiro de 2008 às 14:29 por lcmanini

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