Algumas me vezes, me pego rindo da vida e das pequenas coisas que vão inundando o dia a dia. Ontem, durante a noite, foi uma dessas vezes em que me senti em um estado “Alice no país das maravilhas”.
Obviamente, quem lê esses posts aqui sabe, e muito bem, que situações inusitadas são meu forte. A escalada do muro do cemitério para uma foto incomum, na qual se diluíram as fronteiras entre a terra dos vivos e dos mortos. O indiscreto roubo do pé de pimenta, articulado por um ladrão apreciador de iguarias.
Mas a noite de ontem foi diferente. Nada de saltos e agarros a concreto, nem de criminosos. Por um momento pensei nisso, mas uma boa lanterna e uma dose de coragem fizeram com que eu conseguisse ir ao quintal e ver o que tanto alarmava minha basset. É, isso mesmo, um homem desse tamanho, que tem uma basset e muito medo!
Mas o que me alegra é que ela não é uma dessas cachorras histriônicas, que se largam a latir pelas folhas que balançam. Ela é contida, reservada. Dá o alarme nas horas próprias, e só incomoda meu sono se absolutamente necessário! O que talvez, em sua concepção (canina, é claro) fosse indispensável.
Lanterna à mão, vaguei pelo modesto quintal em busca de pistas, provas de uma irrupção inoportuna do mal-afamado ladrão. A luz percorreu os galhos das árvores, varreu o chão do quintal e também o telhado, e nada! Absolutamente nada. Mas o cão estava lá, alerta. O que a incomodava tanto?
Em um pequeno relance, a luz encontrou o alvo. Postado em uma posição incômoda, apoiado em cima do pedaço de madeira que sustenta nosso varal. Nessa antiga e interiorana armação, bem em seu topo, jazia um rato. Jazia, pois estava morto já, dependendo do tempo apenas para consumar sua situação. A cadelinha não deixaria escapar sua vítima, que vidrava os olhos em tudo ao redor, sem ter como escapar.
Entre os pensamentos animais que me tomaram a cabeça, imaginava o que pensava o pobre roedor, dizendo de si para si “Cheguei até aqui, e agora?”.
Agora, infelizmente não sei mais. Nem sei mais se o pobre rato ainda pensa, se um dia chegou a fazer isso. Mas o pensamento de comiseração de tomou conta de mim naquele momento mudou o rumo da vassoura, que se ergueu do chão e acertou-o por baixo, fazendo-o voar para além dos muros. Ainda assim, estou vítima do desassossego. Serão os roedores vingativos?
n precisava d vassouradas
mesmo estando morto.