Ainda somos os mesmos!

Autobiografia alheia

Não, não começaria mais um texto com interrogações. Iago pensou, hesitou, e decidiu: Sim, poderia escrever sobre todos os seus dias. Afinal de contas, escritores por toda parte escrevem sobre um dia. Por que não escrever sobre todos os seus dias?

Lógico que isso não poderia começar com uma interrogação. Imagine. Colocar na mente das pessoas que sua vida era uma eterna dúvida. Jamais. Apesar de que, no momento de escrever, sentiu-se agoniado. De novo, sobre ele mesmo? Não havia alguém dito que escrever auto-biografias era uma chatice, depois de algum tempo? "Certo, vou jogar a culpa em outro alguém", e começou.

Iago escreveu sobre Romeu, não aquele da tragédia (achou muito burlesco, e repetitivo). Narrou a vida do homem atormentado, insone, cujos dias se arrastavam e se repetiam na mesmice. Romeu não era um cara mau; era difícil. Tinha pensamentos vagos e tolos, muitas vezes, mas conseguia se apegar a coisas elevadas. Possuía grandes projetos, coisas que talvez, um dia, mudariam o mundo, o modo de as pessoas pensarem, ou talvez mudassem somente a si mesmo. Pensava em fama, em glória, em eternidade. Lembrou de Karl Marx, sua pobreza, seus vários filhos e a mulher costureira. E pensem: até hoje ele é citado, lido, estudado. Mal assimilado, é verdade, mas é famoso.

Quanto aquele pobre homem havia sofrido. Romeu não sofria. Talvez apenas de estar sozinho em casa, olhando pela janela o frio que se aproximava, narrado em sua viagem pelos ventos que alisavam seu rosto e o encrespavam. As folhas faziam um barulho curioso, uma triste jornada em meio a calçada, e Romeu decidiu: seria cronista. Contaria das coisas que viu e sentiu e ouviu, e assim as pessoas o entenderiam. Diriam: caramba, como ele escreve bem. E sentou-se ao computador.

Sentiu-se um traidor àquela hora: não era do computador que haviam saído os clássicos, deveria escrever à mão. Mas, sobre as folhas? Lera no jornal sobre a névoa, ou sobre algo parecido. Lera sobre o bêbado que cantara na avenida às quatro e meia da manhã. Aquilo sim era um texto. Ele, tão miserável em seu ofício de letras, conseguiria transmitir tamanha sensação ao escrever sobre as folhas que rolavam calçada abaixo?

Iago parou, olhou, e sentiu-se orgulhoso. Saía ali uma história que não era auto-biográfica. Não seria o chato da literatura. Conseguiu escrever sobre alguém que não existia, sobre alguém que não conhecia. Escreveu sobre si mesmo.

Publicado em 27 de janeiro de 2008 às 10:40 por lcmanini

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