Ainda somos os mesmos!

Aquela senhora

Aquela mulher na janela me diz muito. Mesmo calada. Observo só. Não quero dizer nada. Ou deveria dizer, mas não posso. Ou não consigo. Não entendo bem. Preferi escrever, assim seria mais leve e mais solto do que balbuciando coisas que, à pena, parecem muito mais elegantes e vívidas. Aquela mulher é minha mãe.

Nunca escrevi crônicas; se as escrevi, desconheço. Este misto de literatura e jornalismo, acrescentando algo de pessoal, é muito descritivo para ser verdade. Sempre narrei; narro minha vida cada dia, e vejo em tudo essas narrações. E nelas, a senhora está sempre presente. E acho engraçado agora, olhar pela janela através de você e pensar nisso, que será lido por “alguéns” que nem nos conhecem.

Alguns vão entende, e a eles dedico meu muito obrigado. Outros não entenderão, e talvez considerarão uma infantilidade guardar espaço num jornal pra uma declaração de amor filial. Para vocês, meu muito obrigado também, por tornar isso ainda mais um exercício de demonstrar que, além disso, o que vai aqui são linhas de um forte afeto, de amizade, de respeito, de admiração.

Aquela senhora das risadas, senhora de situações constrangedoras (às vezes, não é? E quem não se constrange consigo mesmo?), senhora dos pastéis de feira na quarta feira à noite, dos espetinhos no final de tarde, do jogo do bicho ao longo do dia (E ae mãe, ganhou? Não? Hunf!). A senhora da hipocondria cômica, quando rimos jogando fora remédios vencidos. A senhora das frases impensadas (Ah, essa música é do tempo da dentadura? Não mãe, da ditadura! Ah, mas é velha do mesmo jeito, tinha que usar dentadura mesmo!). A senhora-alvo das brincadeiras de alguns amigos (que Deus perdoe vossa língua, companheiros!), a senhora que tornou tudo isso possível.

Não queria que este texto parecesse um obituário, dizendo tudo de bom que ela fez, como me fez feliz, como tornou tudo mágico. Jamais! Espero que esse texto sirva, de alguma forma, não para mim, não para ela. Sirva para aqueles que não conseguem pensar nas suas próprias mães sem uma pitada de amargura, um pedaço de cólera, um pensamento de tristeza. É a vocês que dedico esse texto, não para invejarem, mas para pensarem diferente.

Afinal de contas, a literatura toda deveria ter esse mesmo objetivo: tornar a vida leve, lúdica. Não que os textos de dor e sofrimento não me agradem; ao contrário, eles me tornam mais humano. Humano como aquela senhora.

Hoje perguntei a ela se tinha medo de morrer; já viveu sessenta anos, e talvez esse não seja um fim próximo, mas inevitável. Ela me disse que não, só não queria que fosse de “morte matada”. Nunca quis morrer dormindo, talvez sua consciência queira ver isso de perto. Mas sabe o que eu penso da morte, mãe? Que ela vai chegar, e isso não podemos mudar. Mas é justamente ela que torna tudo mais interessante. É pela espera da morte que vivemos, e queremos ser mais intensos a cada dia.

Fico feliz por estar hoje a seu lado e pensar que esse dia final demore. Ainda vamos rir muito da vida, por tudo que ela quis fazer com a gente e evitamos. Ou mesmo naquelas coisas que não conseguimos evitar, mas que conseguimos nos levantar depois. Afinal, você estava lá, e tudo isso foi muito bom. Obrigado, mãe!


Publicado no jornal Folha de Londrina

Publicado em 30 de janeiro de 2008 às 07:02 por lcmanini

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