Ainda somos os mesmos!

Reprodução



E as meninas tinham ali, naquele momento, um sentimento de estranheza. O que lhes faltava? Um amor, compreensão, uma balada, talvez saúde? Não se sabe. Eles as observavam. No entanto, não as desejava. Aquele estranho sentimento de amizade, existente entre os sexos opostos, os unia acima de tudo.

Talvez um dentre eles não pensasse assim, ou não pensassem assim dele. Talvez houvesse desejo, por parte de alguém, mas não saberia identificar. Seus olhos obviamente reparavam nas qualidades das meninas. Várias, diga-se de passagem. Suculências que se lhe desfilavam aos olhos, e abriam um caminho quase sem volta em sua mente.

Eram suas amigas, mas muitas vezes pensava nas conveniências que a civilização impunha. Fraternidade e lealdade se interpunham ao ciclo reprodutivo, e ele ria, gracejava, até tocava nas meninas; mas aquele toque respeitoso, do amigo que sabe os limites do bom senso. Pensava no quanto matamos as possibilidades da seleção natural ao instituir valores estranhos à natureza humana.

O humano é destruição em sua natureza; há um prazer sádico na brincadeira da criança, que gosta de ver o fogo, não por seu potencial energético, mas naquilo que contém de destrutivo; na criança que bate no amiguinho para impor o respeito; que arremessa coisas em qualquer direção, não por querer afastar de si o objeto indesejado, mas por querer ver o dano causado.

Civilizamo-nos; criamos o Estado, para reproduzir a hierarquia natural do mamífero em seu estado bruto. Criamos a amizade entre homens e mulheres e burlamos o sentido final de nossa permanência aqui, a reprodução e a seleção dos melhores genes. Ele ali, elas ali. E nenhuma possibilidade. Muita responsabilidade. O dever ainda urgia dentro dele, pois seu animal deveria reproduzir-se. Não ali, não naquele plantel.

Olhou o fundo do copo, viu espuma, pediu cerveja. E acrescentou: “Como é bom estar entre amigos.”

Publicado em 25 de fevereiro de 2008 às 14:29 por lcmanini

Marcelo

Até então, me chamava de “sangue”. Sempre completado por uma alcunha que lembrava, a mim e a ele, de um momento de boa vontade: “ô, você é o sangue que me deu a blusa lá”. De outras horas que desejei escrever sobre ele, mas não encontrava aquele clique que sempre nos leva a fazer algo. Ou talvez me leva, pois sou, em boa parte do tempo, um indolente.

Não em relação a meu trabalho; este sempre levei a sério. Mas em missões diversas, como escrever, tomar determinadas atitudes, houve muitas vezes um macilento “deixa pra depois” em meus pensamentos. E assim o foi com ele, e com o que pretendia dizer, até ontem.

Visitar amigos é algo que não vou dizer que seja excepcionalmente bom; gosto, faço-o, mas para me entreter por alguns minutos. Quem me conhece, sabe dos meus “enjoei” ou “quero ir embora”, quando me enfastio das conversas tolas, das risadas inconseqüentes, ou do próprio incômodo que acredito ver nos olhos alheios. Mas ontem não; ontem, ao descer do carro, na rumo da visita a uma amiga, topei com o tal sujeito, o tal que me chama de sangue.

Nunca consigo deixar de notar suas tatuagens. São inúmeras. Desenham sobre ele algo que ele gostaria de ser, ou que se ilude que é. Mas, curioso... Na minha concepção, ele é apenas um morador de rua, ou algo assim. Alguém de agruras, lógico, mas talvez o morar ou não na rua seja um mero detalhe.

Mostrou-me o volume no bolso; um alicate, diz. Para cortar fios que sobram das construções, ou os que ele acha pelas suas andanças, insuspeitos, não temerosos de que alguém os corte. Disso vem sua sobrevivência. Diz ele.

Encostou-se no meu muro há muitos dias atrás. Chovia uma tristeza fria e fina. Gelava o ano que começara sem suas datas. Por isso, talvez, sua imprevidência. Por isso, talvez, encostava ali e me pedia algo para cortar o frio cortante. Dei-lhe a blusa. Ganhei uma conversa. A mesma que se repete até hoje, em linhas gerais, toda vez que o encontro.

Daquele dia, guardei na memória o cheiro de sua mão que apertou a minha. Uma vez, ouvi dizer que um morador de rua se sentia mal porque as pessoas evitavam toca-los. Tinham nojo, medo, algo assim. Aprendi que deveria tocá-los, dar-lhes a mão a apertar, para sentirem-se mais humano. E naquele aperto de mãos, ficou uma reminiscência. Um cheiro. De rua. Que sinto toda vez que o encontro.

Mas qual meu espanto? Por sua lucidez? Por achar ele que, embora usar drogas fosse um crime, deixar filmes pornôs a disposição de crianças era um delito ainda maior, por corromper a base familiar? Por acreditar que os grandes senhores do tráfico são os governantes, para os quais o lucro do tráfico de drogas o impede de acabar com o comércio ilegal? Por me dizer que já conviveu com outros que, depois de consumarem um assassinato, assistiam TV e riam, com o corpo ao lado?

Talvez; não esperava além da amargura. Veio-me uma concepção de mundo. Veio-me alguém que discutia comigo, encostado no muro, exibindo suas tatuagens, sobre os rumos e planos do governo, sobre o valor da família, sobre a criminalidade. Que muitos dos que o olham acreditam que faça parte. Eu não acredito. Para mim, ontem, ele se tornou ainda mais real, ao dizer: “Eu me chamo Marcelo. Vai com Deus sangue”.

Publicado em 17 de fevereiro de 2008 às 11:11 por lcmanini

O impostor da madrugada

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Algumas me vezes, me pego rindo da vida e das pequenas coisas que vão inundando o dia a dia. Ontem, durante a noite, foi uma dessas vezes em que me senti em um estado “Alice no país das maravilhas”.

Obviamente, quem lê esses posts aqui sabe, e muito bem, que situações inusitadas são meu forte. A escalada do muro do cemitério para uma foto incomum, na qual se diluíram as fronteiras entre a terra dos vivos e dos mortos. O indiscreto roubo do pé de pimenta, articulado por um ladrão apreciador de iguarias.

Mas a noite de ontem foi diferente. Nada de saltos e agarros a concreto, nem de criminosos. Por um momento pensei nisso, mas uma boa lanterna e uma dose de coragem fizeram com que eu conseguisse ir ao quintal e ver o que tanto alarmava minha basset. É, isso mesmo, um homem desse tamanho, que tem uma basset e muito medo!

Mas o que me alegra é que ela não é uma dessas cachorras histriônicas, que se largam a latir pelas folhas que balançam. Ela é contida, reservada. Dá o alarme nas horas próprias, e só incomoda meu sono se absolutamente necessário! O que talvez, em sua concepção (canina, é claro) fosse indispensável.

Lanterna à mão, vaguei pelo modesto quintal em busca de pistas, provas de uma irrupção inoportuna do mal-afamado ladrão. A luz percorreu os galhos das árvores, varreu o chão do quintal e também o telhado, e nada! Absolutamente nada. Mas o cão estava lá, alerta. O que a incomodava tanto?

Em um pequeno relance, a luz encontrou o alvo. Postado em uma posição incômoda, apoiado em cima do pedaço de madeira que sustenta nosso varal. Nessa antiga e interiorana armação, bem em seu topo, jazia um rato. Jazia, pois estava morto já, dependendo do tempo apenas para consumar sua situação. A cadelinha não deixaria escapar sua vítima, que vidrava os olhos em tudo ao redor, sem ter como escapar.

Entre os pensamentos animais que me tomaram a cabeça, imaginava o que pensava o pobre roedor, dizendo de si para si “Cheguei até aqui, e agora?”.

Agora, infelizmente não sei mais. Nem sei mais se o pobre rato ainda pensa, se um dia chegou a fazer isso. Mas o pensamento de comiseração de tomou conta de mim naquele momento mudou o rumo da vassoura, que se ergueu do chão e acertou-o por baixo, fazendo-o voar para além dos muros. Ainda assim, estou vítima do desassossego. Serão os roedores vingativos?

Publicado em 12 de fevereiro de 2008 às 22:38 por lcmanini

Baseado em furtos reais

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E eu juro que não estava entendendo nada!

Como assim? Pra que uma coisa dessas? Bom, no final das contas, ele havia entrado ali, com um objetivo claro, certeiro: furtar!

Mas não era qualquer furto; quem furta qualquer coisa é moleque cheirador de cola. E desses, curioso, o dono da casa tinha ódio! Imagine, poderiam entrar na sua casa e roubar a toalha no varal... Pensa bem, que coisa mais fuleira!

Mas não; o dono da casa admirava os grandes ladrões, aqueles que fazem do furto uma arte (e por que não seria?). Planejamento, espera, atitude rápida e decisiva; lucro no bolso, ou nas mãos mesmo, correria pra um boteco, tomaria uma pinga, riria do dono da casa que ali dormia, incólume, sem saber que, logo ali, alguém lhe tirava um bem.

Seria precioso para o dono da casa? Qual o valor daquilo? De certa forma, esses pensamentos concorriam com outros; transpiravam-lhe as mãos. Era um furto, decerto. Mas que mal haveria? Para ele, o ladrão, aquilo não era nenhum crime hediondo. O bem estava ali, bem nas fuças de quem quisesse ver! E claro, tivesse a coragem de levar.

Ele teve, mesmo debaixo daquela chuva torrencial. Pensou que, de alguma forma, seria bom para ele. Pulou o muro, baixo, que convidava ao delito. Suas mãos procuraram o melhor ângulo, calculou a força, puxou dali seu produto e evadiu-se, tomando rumo ignorado.

O dono da casa acordou, abriu a janela e, no primeiro momento, não entendeu. "Mas é o fim da picada... Roubaram meu pé de pimenta!"

Publicado em 10 de fevereiro de 2008 às 10:32 por lcmanini

Fronteira

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Algumas vezes, a fronteira quase não existe.

Algumas vezes, olho para os lados, e quero descobrir onde se deitam os mortos.

Algumas vezes, falta descobrir onde a vida se esconde e se encontra.

Publicado em 03 de fevereiro de 2008 às 11:11 por lcmanini

Pensamento do dia!

Hoje, nada de post profundo, sentimental.

Vou narrar uma situação, digamos, trágico-comum-cômica!

Estava eu, no meu modesto carro 1.0, indo trabalhar pela manhã. 7 e meia da manhã, e me encaminho para o colégio, dirigindo pelas margens do Igapó, toda arborizada, que me fornece uma sombra aprazível e uma vista que admiro.

No som, Zeca Baleiro e sua vontade de mandar flores ao delegado, de bater na porta do vizinho e desejar bom dia. E assim, dava bom dia ao transeuntes, mesmo que eles não o soubessem.

Eis que cresce em meu retrovisor a figura de um outro veículo, de potência igual, mas talvez de compromissos mais urgentes. E me lança um sinal de luz para que eu acelere, pois ele tem pressa, e não pode me ultrapassar.

Penso no absurdo da situação ao verificar no velocímetro os 40 quilômetros por hora da lei e a minha petulância em segui-la.

Moral da história: Quer irritar alguém no trânsito? Cumpra as normas!

Publicado em 01 de fevereiro de 2008 às 11:51 por lcmanini

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